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Cenário das vacinas no Brasil

As vacinas da COVID-19 estão se mostrando seguras, protetoras, abrangentes contra diversas variantes de preocupação e estão salvando vidas. Todavia, relatos de pessoas que tomaram o regime completo de vacinas e infelizmente tiveram COVID-19 grave ou vieram a óbito estão sendo noticiados. Todos nós precisamos entender nosso contexto em relação ao: 1) cenário, 2) dados dessas vacinas e 3) nosso papel na comunicação científica.

O movimento Todos Pelas Vacinas, assim, decidiu hoje falar sobre estas três questões.

1) CENÁRIO DA COVID-19

Em um cenário de alta transmissão e exposição, com muitas pessoas ainda suscetíveis ao vírus na população (sem histórico de COVID-19 e/ou não vacinadas), poderemos ter uma piora no cenário se não adotarmos, também, as medidas de enfrentamento e medidas de diminuição da circulação de pessoas, com protocolos claros de segurança (sem teatralizar a higiene), com restrição de atividades não essenciais, para fins de diminuição contágio. Uma pessoa completamente imunizada vai ter um risco menor de pegar a doença, ainda menor de agravar pela doença, mas este risco não é anulado num cenário de alta transmissão.

É fundamental ressaltar que este é um cenário vivenciado hoje no Brasil: alta transmissão, muita exposição, poucas vacinas.

2) DADOS DAS VACINAS

Nós conhecemos a performance de muitas vacinas contra a COVID-19 através dos estudos clínicos. Esses estudos clínicos, especialmente a fase 3, são realizados em condições controladas e se baseiam numa amostra da população para observar a eficácia e segurança da vacina. Em muitos desses estudos, não foram vistos agravamentos e óbitos na população vacinada.

Precisamos lembrar que, em um cenário não-controlado e considerando uma população muito maior, é possível observar agravamentos e óbitos mesmo no grupo vacinado, ainda que essa população tenha um risco substancialmente menor para isso. É o caso do estudo de efetividade de várias vacinas, como a Pfizer, AstraZeneca e a CoronaVac, por exemplo.

Sabemos que a resposta imunológica varia de acordo com a faixa etária e pessoas mais idosas têm uma resposta imunológica diferente das mais jovens. Em um estudo recente compartilhado em preprint observamos que a efetividade (ou seja, os dados de “vida real”) da CoronaVac foi menor do que o observado nos estudos clínicos para pessoas acima de 80 anos. Em primeiro lugar, esse estudo observou apenas casos sintomáticos de COVID-19. Não temos dados da efetividade quanto agravamentos, hospitalizações e óbitos. Em contrapartida, estudos analisando as taxas de óbitos entre Janeiro e Abril de 2021 mostraram que houve uma redução de 60% de óbitos na população acima de 80 anos.

Essa população foi majoritariamente vacinada com a CoronaVac. Mesmo que a efetividade mais baixa se confirme para casos sintomáticos, a CoronaVac pode ter uma efetividade maior em proteger contra agravamentos, hospitalizações e óbitos, como já está sendo observado nessa mesma faixa etária. Para qualquer afirmação mais contundente, precisamos de mais análises e dados transparentes. Muitas vacinas têm dose de reforço após algum período de tempo, não seria de se espantar que isso se mostrasse necessário também para as vacinas contra COVID-19.

Mas isso significa que o risco de agravamento e óbito é nulo em quem se vacinou? NÃO, e principalmente em virtude do cenário em que nós estamos. Ressaltamos que nenhuma vacina protege 100% contra qualquer desfecho, seja ele a infecção, transmissão, doença e óbito. Para garantir que o cenário mude precisamos que TODOS, mesmo vacinados, sigam com o uso de máscaras (preferencialmente PFF2), distanciamento físico, não aglomerando, ventilando ambientes e tendo muito cuidado com possíveis contatos e exposições. Essa recomendação vale para qualquer variante, antiga ou nova.

Aproximar pessoas não vacinadas de pessoas vacinadas sem manter os cuidados pode gerar um risco para todos os envolvidos, em especial aos não vacinados. Mesmo os vacinados podem ainda acabar se infectando e, em menor risco, devido à vacina, adoecendo.

Vacinas protegem e salvam vidas, mas precisamos somar a estratégia vacinal com as medidas de enfrentamento para criar um cenário de transmissão o mais baixo possível, amplificando a proteção observada pelas vacinas.

3) SOBRE AS COMUNICAÇÕES CIENTÍFICAS

Não são tempos fáceis e toda e qualquer comunicação que se relacione à COVID-19 (seja tratamento, diagnóstico ou vacinas) geram confusões. Neste sentido, nosso lugar como grupos de divulgadores científicos têm sido de cobrar mais transparência de dados, tanto quanto campanhas e comunicações precisas, claras e objetivas. É fundamental a população compreender que não existe segurança de 100% e isto é mais importante do que dizer que é 100% e termos pessoas se contaminando e, eventualmente, vindo a óbito.

As vacinas são seguras e a vacinação em massa protege, sim, a população. Submeter uma população à comunicação de dados de forma assertiva pode gerar mais insegurança e desconfiança na população.

Não é um problema a vacina não garantir eficácia ou efetividade de 100%, mas é um problema afirmarmos e enfatizarmos isso cada vez mais, frente ao caos cotidiano da circulação descontrolada do vírus, sem políticas públicas de testes, rastreamento, uso de máscaras filtrantes, distanciamento social e garantias sociais para isolamento de populações vulneráveis. Somada a políticas difusas, a comunicação científica precisa ser coerente com os dados científicos e não ser um agravante da situação que vivemos.

Pessoas que tomam vacinas podem contrair a doença, e em casos raros podem ter agravamento e vir a óbito. E isto não deve ser uma informação negada à população. Mas, é preciso que se diga que estes casos são raros e que há mais risco ao não tomarmos as vacinas. É preciso que as comunicações institucionais e científicas concentrem seus esforços no que sempre fizemos de melhor: campanhas efetivas pela vacinação, com informações precisas e que cheguem a todos.